Eva Braun

Pasaconsol (Ela era Eva Braun)

Publicado Por

BORGES CARREIRA

Idioma

Português

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Não me assustei quando vi entrar um homem de cinzento, com os cabelos pelos ombros, segurando uma guitarra, que logo se sentou aos pés da cama e, de costas para a falecida, começou a tocar o “Choro nº.1” de Heitor Villa-Lobos. Só então eu compreendi. Apesar de tudo, Guilhermina fora sempre uma pessoa muito simples, inteiramente “descomplicada”, com orgulho no seu corpo e com excepcionais dotes para o cinema, mas sempre atrás das câmaras. Por isso, quando outros homens de cinzento, de cabelo cortado à escovinha, trouxeram velas e flores, apesar da oposição da Gina que achava que tudo isso era contra a vontade da nossa dona e para mais não passava de uma fantochada, indigna dela, eu dirigi-me a cada um dos que vinham prestar as suas homenagens à que para eles continuava a ser a mulher do Führer, enquanto eu não passava de um intruso em propriedade alheia, e pedi-lhes de uma forma complicada – Ela não é quem eu penso que vocês pensam que é, mas mesmo que continuem a pensar que ela é quem na verdade não é, por favor, e não é por mim, é por vontade expressa dela que ali está, peço-lhes encarecidamente que nem uma saudação de braço esticado que seja. Se quiserem mostrar o vosso respeito, beijem-lhe a mão que ela merece. É uma Rainha. Sempre o foi.

Ajoelhei a seu lado, e rezei longamente e sem palavras. Sentia apenas, e era tudo. Seria, como sempre fui, incapaz de a julgar. Por falta de provas e também porque a amava. Invoquei a suspeição – Eu amo-a, logo não sou isento. Como é que o poderia ser? Foi ela quem me fez, foi ela quem esteve a meu lado quando precisei. É verdade que me torceu um braço. Mas era também muito carinhosa. Eu era o seu bichinho mas nunca logrei ser a sua obra-prima. Sem ela poderia a esta hora ensinar Matemática numa Escola Secundária, ou, quem sabe, na Universidade. Mas não teria os prazeres que dá a vida de um magistrado, por exemplo, aquele orgasmo intelectual quando se faz o despacho final num inquérito complicado, com 37 volumes e 110 apensos, ou quando se fazem alegações finais em julgamento que deixam os advogados boquiabertos e desarmados.

Não tenho opinião sobre o seu passado. Só disponho de prova quanto aos anos maravilhosos que vivi a seu lado e que foram tão poucos. Nunca conheci Eva Braun, apenas conheci uma mulher que fazia ginástica, mergulho, fotografia, cinema, e que se chamava Guilhermina.

E só restam as breves notas de diários breves.

Depois da vigília, o cadáver de Eva Braun foi cremado, agora sim, era verdade, e foi-me entregue a urna com as cinzas. Eu, a Gina e a Paula Clotilde, que ora levava ao colo, ora às cavalitas, tomámos o caminho da marina de Cascais, onde nos esperava o iate La Sirenita. Ao largo da Zambujeira do Mar, o vento soprava de SSW, com uma velocidade de 5 nós. Rezámos uma oração e despejei as cinzas da minha amada no oceano. E depois, tal como ela fizera com aquele homem, deitei o vaso de prata ao mar e vi-o afundar-se.

Cumprira a vontade da minha dona. Ela ficava para sempre ao abrigo dos avanços da biologia forense. Nunca haveria provas seguras da sua verdadeira identidade. No C.E.J., eu fora aluno do Dr.Fernando Bento, em Direito Civil II, e o Direito da Filiação não tinha segredos para mim. Mesmo que, por mera hipótese de trabalho, sujeitassem a Paula Clotilde a recolha de ADN, a conclusão só poderia ser a de que nada tinha a ver com o código genético da família Braun.

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