enviado de Sua Santidade

O Bispo Que Não Sabia Latim

Publicado Por

BORGES CARREIRA

Idioma

Português

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enviado de Sua Santidade

A mulher chamada Maria virou-se para a parede, ficando de costas para Rui. Talvez por pretender reflectir sem que lhe pudessem ver a expressão calculista. Passaram minutos e ela suspirou, como se finalmente se decidisse a lançar-se à água de uma altura de vinte metros.

– Tudo o que eu lhe disser…

– Estou a ouvi-la em confissão, minha filha – disse Rui, olhando para o tecto, como se os seus verdadeiros interesses estivessem mais acima, longe do que era baixo, terreno e vulgar. – O que aqui for dito, aqui fica e aqui se desvanece para sempre, para todo o sempre. Guardo em mim os segredos mais graves. Sua Santidade encarregou-me, creio que já sabe, de uma tarefa muito…

– Bem sei, bem sei, combater o comunismo e extirpá-lo da face da Terra.

– Sim, é isso. Mais ou menos, é isso. Pelo que lhe rogo que ponha toda a sua confiança no Senhor seu Salvador e abra-lhe com fé o seu coração. Com verdadeiro arrependimento, todos os pecados lhe serão perdoados.

Ela levantou-se e deambulou pela sala, quedando-se junto dos cortinados. Levou um cigarro à boca e acendeu-o. Era a altura de elevar bem alto o nome de Otranto. Rui Torneol levantou-se também e tocou-lhe no braço.

– Minha filha, eu sei que isto parece apenas um apartamento, nada mais do que um simples apartamento. Talvez neste momento lhe cheire
mais a refogado do que a incenso. Mas não pode nunca, mas nunca, esquecer que sou um enviado de Sua Santidade e que, por isso mesmo, o chão que pisa – Rui apontou a alcatifa – é… é sagrado. Venha comigo.

Impeliu-a, com delicadeza, para uma pequena sala onde havia uma porta que dava directamente para a escada de serviço e para uma marquise que dava para as traseiras.

– Acabe de fumar. E quando se sentir pronta, então poderemos continuar a nossa confissão. Ou, se preferir, poderá ir-se embora e não são necessárias quaisquer explicações.

Olhou-a, antes de desaparecer pela porta.

– Não tenha pressa.

Apressou-se até à cozinha, onde Clotilde fazia o jantar, vestida ainda com toda a sua negrura que lhe realçava o louro real do cabelo e os olhos claros, mas tinha por cima um avental branco para não se sujar. Beijou-a na testa, para não pecar em horas de confissão.

– Cheira tão bem. O que é que é que vai ser o nosso jantar?

– Lombo de porco estufado, com cebolas e cenouras. Acompanhado com esparguete e salada. A sobremesa é… surpresa.

Rui fechou a porta da cozinha e regressou à sala das confissões. Sentou-se novamente no cadeirão, agora virado para “A Sagrada Família em fuga para o Egipto”. Não era cópia nenhuma. Era um original do mestre flamengo van Eyck, pintado por encomenda do Duque Filipe, o Bom, e desaparecido na voragem das últimas guerras.

– Posso, Eminência? – perguntou a mulher chamada Maria, enquadrada pela abertura da porta.

Rui acenou com a cabeça, para evitar chamar-lhe filha outra vez. Ela adiantou-se na sala e, como era seu hábito, justificou-se. Sentira de repente que fumar na presença de um alto dignitário da Igreja era um grande pecado e não resistira à tentação de cometê-lo.

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